quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PRÍNCIPES ENCANTADOS NÃO SÃO ROMÂNTICOS

Não tem nada de romântico em beijar uma mulher dormindo, desmaiada, em coma. E isso que nos contos de fada originais o príncipe faz bem mais do que beijar. Ele transa com a donzela desacordada, uma total desconhecida que ele encontra em suas andanças! E menininhas são ensinadas que isso é lindo e é o que se deve esperar de um cavalheiro. 
Em outras palavras: é o que chamamos de cultura de estupro. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POR QUE TEM MULHERES QUE INSISTEM EM ATACAR A IRMÃ?

A J. me enviou este email: 

Acompanho teu blog faz teeempo, e sou feminista faz tempo também, para falar a verdade, desde pequena. Minha mãe é feminista, lutou pelas causas aqui no Brasil e nos EUA também quando era jovem, e meu pai, mesmo sendo homem, é um homem feminista, apoia todas as causas, e foi assim que ele conheceu minha mãe!
Bom, Lola... Acredito que aparência não tenha nada a ver com feminismo, mas vamos lá.
Eu sou super, super vaidosa, não exageradamente, mas gosto de moda. Gosto de estar bonita para MIM MESMA, mesmo assim, não malho, nem nada. Isso veio comigo desde pequena, sempre amei me vestir, me maquiar, mas nunca nada dentro dos padrões da sociedade. Tenho 22 anos, tenho um namorado, o único da minha vida, só comecei a namorar ano passado e foi consequência, porque nunca me importei com namoros, nem sexo, nada disso. Enfim. Sou modelo fotográfica.
Quando não estou diante das lentes, eu me visto e me produzo para mim mesma.
E vamos lá: vamos imaginar o seguinte exemplo, que acontece e MUITO. Quase todo dia.
Estou eu, feliz que comprei um casaco novo. Coloco ele, coloco a calça, faço a maquiagem, o cabelo, e saio com meus pais, ou namorado, ou amigos. Estou eu lá, feliz de estar saindo, querendo ter um momento bom...
Aí no shopping ou na rua, topo com algumas mulheres (sempre estão em grupo), e elas começam a me olhar super feio. Com inveja, fazem tentativas de me rebaixar fazendo cara de deboche, ou até mesmo rindo na minha cara.
Eu não quero ser arrogante, mas onde eu passo, todo homem me olha. Recebo cantadas nojentas e algumas menos nojentas, daquelas que o cara passa por você e fala ''Olha essa loira aí, hein''. E não, não gosto do assédio masculino, mas tive de aprender a conviver com ele.
Acontece que quando os homens me olham, elas parecem ficar com ainda mais recalque.
Lola, é uma inveja... Sempre sofri com isso. Ando de cabeça baixa, para tentar diminuir o assédio dos homens, mas também para as outras mulheres não verem meu rosto. Já cheguei no cúmulo de mudar o trajeto que eu fazia em algum lugar só para não passar perto desse tipo de mulher.
Muitas mulheres me elogiam, dizem que eu pareço uma boneca. Nessas eu vejo a bondade vindo delas. Mas e essas que agridem? Que tentam rebaixar?
Qual seu pensamento sobre isso e seu conselho para mim?
As mulheres deveriam ser irmãs, não é? Deveriam se apoiar, não é? Por que tem umas que não podem ver uma mais bem vestida, com um cabelo bonito, e já querem rebaixar? E eu não me cuido e me visto para outras mulheres nem homens. Mas sim, para MIM! Me olho no espelho e estou feliz como estou, como de tudo, não me coloco em dietas, amo meu corpo, e meu namorado (que sempre me acompanha nos protestos feministas e é um exemplo de homem, como meu pai) gosta do meu corpo magro, mas natural, sem exageros, como ele é, não entro nessa neura de ter de entrar num padrão de magreza ou de mulher super musculosa.
Mas me responda, por favor, Lola. Por que tem mulher que é assim? Inveja, tenta rebaixar? Ri da outra, como se a outra fosse uma palhaça?
E aquelas meninas em escolas que são agredidas por serem consideradas belas? O que você pensa sobre isso?
Quando mulheres apoiam outras
mulheres, coisas incríveis podem
acontecer
Eu sofro com isso, Lola. Eu saio para ir no supermercado, e já tem duas ali juntinhas que começam a me medir de cima pra baixo e ficam dando risadinha. Já não consigo mais sair de casa porque sempre tem uma menina, ainda mais meninas jovens, 14, 15 anos, com os ficantezinhos, todas iguaizinhas num padrão, que ficam me olhando torto, feio, tentando debochar.
Eu tenho vontade de ir até essas mulheres e falar: ''Por que você está rindo? Me olhando feio? Eu sou uma mulher, como você! Não sabe respeitar a outra?''
Por que tem mulheres que insistem em atacar a irmã? As mulheres deveriam estar juntas por uma causa, se apoiarem. A sociedade já é tão difícil. Por quê, Lola?
Meus comentários: Querida J., a resposta óbvia é que nós, mulheres, fazemos parte desta sociedade machista. Os preconceitos que aprendemos desde bebês não afetam só os homens, afetam a gente também. Não estamos imunes. Ninguém está. A gente se pergunta: como pode existir mulher machista? Como pode ter negro racista? Gay homofóbico? Ou mesmo pobre de direita? Aquela frase famosa da Simone faz todo sentido: "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Há cúmplices de sobra!
A gente também aprende que mulheres não podem ser amigas de verdade, que sempre vamos competir com a outra pela atenção de um homem, que mulheres são traiçoeiras e mentirosas, sempre dispostas a roubar o namorado ou marido alheio. Imagina o que é crescer acreditando nessas besteiras! Ao mesmo tempo, a gente aprende que o que mais vale na vida é a aceitação dos homens, que a opinião dele é mais importante, que devemos nos comportar direitinho (sem rebeldias feministas!) para ganharmos sua afeição e, com isso, sua proteção. E proteção contra quem? Não contra as mulheres, que duvido muito que alguma que te olhe feio na rua irá te atacar. Infelizmente não posso garantir o mesmo dos homens.
Tem muita mulher que passa a ser fiscal da aparência de outras mulheres, da sua sexualidade, do seu comportamento. Assim como tem menina que te olha feio e ri de você por te achar bonita, tem muitas que fazem isso com quem acham feia. Elas não têm sororidade, não sentem que estão no mesmo barco, não veem que isso acontece também com elas. Ou talvez aconteça e elas querem se vingar em outra mulher, vai saber. 
Você apontou que isso só costuma acontecer (ou acontece mais) quando elas estão em grupo. Imagino que dói, mas não é nem pessoal. É um jeito dessas meninas se unirem como grupo atacando alguém fora do grupo. É uma estratégia baixa e que geralmente funciona. Se funciona com países (que escolhem um inimigo imaginário para se unirem contra ele), como não vai funcionar com grupinhos muito menores?
É triste, mas julgar a aparência de outras mulheres (que estão fora ou dentro do padrão) não é incomum nem entre feministas. Ou seja, insistem em atacar a irmã. Quiçá não vejam aquela mulher como irmã. 
Falar é mais fácil que fazer, e vale pra todas as pessoas, homens e mulheres, mulheres feministas e não feministas: dane-se o que elas pensam da sua aparência, das suas roupas, do seu comportamento. Não ande com cabeça baixa. Cabeça erguida. Não desvie o olhar. Fitar de volta é considerado desafiar (faça isso e observe quantos homens que estavam te "cantando" passam a desviar o olhar assim que você devolve a ação). Se já estão falando mal de você mesmo, que te achem logo convencida e arrogante.
Lógico que essa atitude do "Vai encarar?" tem que ser segura. Você tem que acreditar no que está fazendo. E não é simples ignorar a opinião alheia, nunca é. Mas tente, querida. E continue se indignando por ter que fazer a pergunta do título. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O CURIOSO CASO DE BOLSONARO BUTTON

Resumiu bem (clique para ampliar).
E não param de surgir casos de nepotismo, que pra família Bolso deve ser sinônimo de meritocracia.

domingo, 10 de dezembro de 2017

A GENTE VALORIZA

Inclua aqui sua legenda (ok, aqui não. Nos comentários. Você entendeu).

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ESTÁCIO DE SÁ DEMITE 1,2 MIL PROFESSORES. UM DELES EXPLICA PORQUÊ

Um mês depois da reforma trabalhista entrar em vigor -- aquela que governo e empresários juram que será ótima para os trabalhadores e gerará empregos --, a Estácio de Sá, segunda maior rede de ensino no Brasil, demitiu 1,2 mil professores (mais de 10% do seu quadro; alguns falam em 1,5 de demissões).
O grupo, porém, disse que vai contratar o mesmo número de professores, obviamente com salário muito menor e através de contratos intermitentes que pagam só por horas trabalhadas, sem nenhum direito garantido pela CLT. Os docentes demitidos foram justamente os que ganhavam mais e que estavam há mais tempo na instituição. Muitos eram considerados os melhores professores pelos alunos. 
Além do mais, os professores demitidos estão sendo proibidos de entrar nos prédios ou de dar sua última aula, mesmo em outro recinto. É absurdo como esses profissionais estão sendo tratados. 
E não é por ser uma universidade particular que pode tudo. Afinal, as instituições privadas estão ganhando muito dinheiro através de programas como ProUni e Fies, que conseguem inserir alunos de baixa renda, mas ao custo de enriquecer ainda mais quem vê educação como negócio (um serviço, não um direito).
Hoje a Justiça do Trabalho suspendeu as demissões. A juíza Larissa Lopes concedeu uma liminar em favor do Sindicato dos Professores do Rio (Sinpro-Rio). Mas a medida vale apenas para os professores do Rio. É preciso que mais sindicatos se posicionem e protejam os professores (a Estácio pagava valores diferentes para hora aula e hora atividade, por exemplo. Agora, na rescisão dos contratos, terá que pagar tudo certinho). 
Um dos professores demitidos da Estácio me enviou este texto contando como os problemas começaram quando o "deus mercado" passou a ditar as regras.

A Estácio virou o símbolo da nova Reforma Trabalhista ao demitir professores em massa, como se estivesse descartando caixas de papelão que estão atrapalhando no depósito. Mas a destruição da marca Estácio não começou agora não. Senta que lá vem história.
Entrei na Estácio há mais ou menos dez anos. No começo a empresa ainda era da Família Uchôa. Por ser privada, tinha como objetivo dar lucro. Mas, sendo uma instituição de ensino, olha só, havia também a preocupação em ensinar. Havia respeito com alunos e professores. Tanto que isso atraiu professores do mercado de trabalho que queriam fazer algo diferente, e até professores de instituições públicas concorrentes. Não, não é mentira. Em pouco tempo os cursos se tornaram referência. A marca Estácio virou sinônimo de qualidade. Então houve a abertura de capital na bolsa. E apareceu o vilão Mercado.
O primeiro grupo que assumiu exigiu que a então direção cortasse a folha de pagamento quase pela metade. Sabe qual a diferença entre esse episódio passado para o atual? Respeito. O reitor conversou com todos. Tudo foi feito para tentar causar o mínimo de dor em professores e alunos. A prova disso é que até hoje essa pessoa é admirada. Mesmo por quem teve que sair na época. Depois da tempestade, quem ficou seguiu feliz certo que o pior já tinha passado. Inocentes. 
Então chegou o famoso grupo de executivos que são donos de várias marcas. Nossa, eles são tudo que o Mercado admira. Realmente. Em pouco tempo só interessava números e metas. Mesmo que algumas metas fossem conflitantes. Não importava. O que importava era subir a ação na bolsa. Primeiro, cortaram o currículo. O MEC permite que até 20% de um curso tenha “outras atividades”. Surgiram as aulas online e atividades fora de sala, cortando disciplinas “desnecessárias” como português, por exemplo. Ou Ética. E, acredite, até matérias que eram essenciais para certos cursos/áreas. 
Com isso, os alunos passaram a ter em média dois dias e meio de aula por semana. Isso mesmo que você leu. Dois dias e meio de aula apenas. Mas a maldade não para aí. O MEC exige que um curso tenha X horas e esses novos 20% faziam chegar no X. Acontece que parte desse X era de atividades fora de sala, lembra? A disciplina Y tinha 4 créditos para o MEC, mas para o aluno eram apenas 2 em sala. Tudo bem, né? Sim, se a Estácio não estivesse COBRANDO do aluno os 4 créditos mesmo só entregando 2.
Quando a manobra ficou evidente, vários alunos de várias unidades entraram com processo. A coisa foi tão feia que o próprio sistema da empresa não considerava mais esses créditos extras na hora de matricular o aluno. Contava apenas o que devia pagar. Ufa, problema resolvido, certo? Errado. Nas unidades onde os processos não chegaram eles seguiram dando 2 créditos e cobrando 4. Seguiram lucrando.
Com tantas alterações, o clima mudou e ficou evidente que algo estava errado. O reitor correto, por exemplo, foi embora. A boa imagem da Estácio ainda lotava as turmas de calouros, mas a evasão nos semestres seguintes era gritante. Em média, começou a se formar em torno de apenas 10% de quem entrava. Ruim? Não quando divulgam para o tal Mercado os excelentes números da captação, não quando o organograma da empresa diz que o Comercial é responsável pela captação. E bate metas, e ganha parabéns e bonificação. 
E a culpa da evasão é do Acadêmico, que fica sem poder fazer nada pois todo o investimento que precisa para professores/ equipamentos/ laboratório/ biblioteca e afins depende do que ele está “fazendo”. Resumindo: o Comercial enche sala de aula (algumas sem espaço para os alunos, com aulas sendo aplicadas em auditório. Aula de matemática ou semiótica num auditório. E o aprendizado?), inclusive com promoções como “Estude na Estácio e não pague os dois primeiros meses”. Bate meta. Divulga números. Ação sobe. Mercado feliz. No final do semestre o Acadêmico é punido porque alunos vão embora em massa. 
Preocupados, Coordenadores iniciaram um estudo para entender o que estava acontecendo. Botaram os olhos nos tais números. E aí confirmaram algo que os professores sempre reclamaram: alunos “fantasmas” nas listas de chamadas. Alunos que não estavam na instituição há anos. Ou até que nunca entraram. Uma universidade é avaliada pelo tal Mercado por um único fator: quantidade de alunos. Mais alunos, vale mais. Menos alunos, vale menos. Talvez isso explique as notícias que saíram sobre um rombo na empresa. Não sei, pode não ter nada a ver com isso. Afinal, quem acredita em fantasmas?
O Mercado estava muito feliz. A ação da Estácio chegou a ser uma das mais valorizadas NO MUNDO. Já dava para o tal grupo famoso vender. E vendeu. A marca? A empresa? Os professores e alunos? A bomba-relógio que virou tudo? Danem-se. Problema para os novos donos. E os empresários seguem admirados pelo Mercado e comprando novas empresas. 
Então, fechando nossa saga, a Kroton (a outra gigante no ensino) tenta comprar a Estácio. Mas o negócio é algo tão grande que precisa da aprovação do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Esse processo faz tudo parar. Não entra investimento em nada. Estragou elevador? Banheiro está sujo? Queimou equipamento? Segue a vida. Com professores fazendo mágica em sala e os alunos rezando para não cair o teto. E prepare-se pois agora vem a cereja do bolo.
Na Estácio sempre teve três avaliações: Av1, Av2 e Av3. A média é 6 (antes era 7, agradeça essa também ao tal grupo admirado). O sistema soma as duas mais altas, mas não pode ter nota menor que 4. Eis que inventaram uma “Av4”. Se o aluno reprova, nas férias, pode pedir para refazer a prova (que vira online, mesmo se a disciplina era presencial). Se passa, paga e sua reprovação vira aprovação. Tudo para evitar a evasão. 
Se o prédio desse engenheiro que tinha reprovado vai ficar de pé não importa. Ele passou. Vai pagar mais alguns semestres até se formar. Metas batidas, Mercado feliz. Quer pagar quanto no seu diploma?
Então O CADE não aprova a fusão. E, pouco tempo depois, a bomba relógio explode atingindo 1,2 mil professores.
O pior dessa triste história é que a Estácio foi uma instituição que realmente se preocupou com professores e alunos. Estava investindo em excelentes educadores e formando profissionais competentes. Estava educando para transformar. Mas passou a querer transformar apenas o valor das suas ações. 
No fim, conseguiu foi transformar sua marca em sinônimo de tudo que há de ruim no tal Mercado. Numa empresa que não respeita as pessoas. Não se preocupa nem com o mal que uma péssima educação pode causar. 
Mas o Mercado está feliz. 
De um ex-professor que, claro, precisa ficar anônimo. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

LEI LOLA FOI APROVADA HOJE

Uma boa notícia em meio a tantos retrocessos: hoje a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4614/16. 
O PL é de autoria da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), que se inspirou no meu caso para propor a Lei Lola. Ela atribui à Polícia Federal (mas não só a ela) a investigação de crimes de ódio contra as mulheres pela internet. 
A votação hoje foi um acordo entre as lideranças para marcar a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher. 
Clique para ampliar
A lei é muito importante porque, como o meu caso (e de tantas outras mulheres) mostra, quem nos ataca pela internet raramente é punido. Eu sou ameaçada de morte e atacada pelo menos desde 2011 por misóginos assumidos. Já fiz onze boletins de ocorrência, tem inquérito aberto, a PF investiga desde dezembro do ano passado (quando o reitor da UFC, universidade onde trabalho, recebeu um email dizendo que, se eu não fosse exonerada, ele passaria uma semana recolhendo pedaços de 300 cadáveres). Mas investiga por crime de terrorismo, não pelas milhares (literalmente) de ameaças que recebi e ainda recebo
Tenho um email de um superintendente da PF, de 2015, dizendo que eles não iriam investigar os ataques a mim, porque eles só atuam nas áreas em que o Brasil é signatário internacional (racismo e pornografia infantil -- crimes cometidos às dúzias pela quadrilha que me persegue). 
Na época, a quadrilha misógina e neonazista criou um site falso no meu nome. O site "vendia" remédios abortivos e defendia coisas que eu jamais defenderia, como aborto de fetos masculinos, castração e infanticídio de meninos, queima de bíblias etc, e chegava ao cúmulo de inventar que eu havia realizado um aborto numa aluna durante uma aula na UFC. Era ridículo, mas, com a ajuda de reaças como Olavo de Carvalho e Roger, do Ultraje, que divulgaram o site mesmo sabendo que não era meu, ele viralizou. 
Eu com assessorxs incríveis da
deputada Luizianne Lins em setembro,
em Brasília
Por incrível que pareça, um dos próprios criadores do site me denunciou ao Ministério Público, que acatou a denúncia contra mim! Fui chamada para depor na PF e "provar" que o site não era meu (felizmente, eu havia feito um BO um mês antes). Mas o nível do absurdo era surreal. Não só a PF não ajudou (e declarou que não iria ajudar) a ir atrás dos culpados, que eu e toda a torcida do Flamengo sabemos quem são (até porque um deles foi preso por uma operação da PF em 2012, também por site de ódio), como eu fui tratada como suspeita. 
Foi esse caso que fez com que Luizianne (que ainda não conheço pessoalmente) apresentasse a proposta da Lei Lola. Para virar lei, o texto ainda precisa passar por votação no Senado e ser sancionado por Fora Temer. Luizianne é também autora do PL 7292/17, que se for aprovado será a Lei Dandara, que incluirá o LGBTcídio como homicídio qualificado, ou seja, crime hediondo. 
Além disso, Luizianne me indicou para a medalha Mietta Santiago 2018, um prêmio concedido pela Secretaria da Mulher da Câmara para pessoas, instituições e campanhas relacionadas aos direitos das mulheres. 
Fico muito honrada por ter sido lembrada, mas na segunda a bancada chegou ao consenso de homenagear a professora Heley de Abreu Silva Batista, uma grande heroína que sacrificou a sua vida para salvar 25 crianças no terrível Massacre de Janaúba, em Minas, em outubro. 
Nada mais justo que a guerreira Heley seja homenageada. Mesmo assim, ficou registrado em plenário o reconhecimento e o valor de todas as quinze indicadas. 
Estou feliz. A aprovação do PL 4614/16 é uma vitória de todas as mulheres!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

PELO DIREITO DE PODER SER O QUE QUISER

Adoro um estudo que registra as reações de pessoas a bebês, ou melhor, ao mesmo bebê. Como a gente sabe, meninas bebês são muito parecidas a meninos bebês se não estiverem usando algo que as diferenciem (brinco na orelha, laço no cabelo, roupinha rosa). 
E como a gente também sabe, as pessoas costumam ficar muito ansiosas se não sabem o sexo do bebê. Elas precisam de algum código, como o nome do bebê (masculino ou feminino), para saber como agir com ele. Então tem mais de um estudo que mostra pessoas expostas ao mesmo bebê e vê como elas se referem a ele. Se são avisadas que o bebê é menino, elas dirão que ele é forte, grande, corajoso, teimoso, viril, másculo, pegador, vai dar trabalho quando crescer, hein?
Se são avisadas que o bebê é menina, dirão que ela é linda, fofa, pequena, quietinha, doce, uma princesa. Detalhe: é o mesmo bebê! 
E ela viveu feliz para sempre, fazendo
sexo com quem desejava, usando as
roupas que ela queria, e sem se
importar com as merdas que as
pessoas pensavam sobre ela
Esses estereótipos atribuídos a cada gênero não têm nada de natural e se perpetuam por toda a vida. Somos ensinadas que somos sexos opostos, que existem coisas de menina e coisas de menino, que não podemos ser tudo que quisermos ser. É uma camisa de força para todos. E quem sai perdendo é a sociedade, que limita seus indivíduos baseados em noções retrógradas.
"Ideologia de gênero", se existe, é exatamente isso: ditar o que meninas e meninos podem e não podem fazer, podem e não podem ser, como têm que agir, as oportunidades que terão na vida. Ou seja, é o que já vivemos.
 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

LIBERTEM CYNTOIA BROWN

Esta é uma história horrível e real sobre uma jovem negra, Cyntoia Brown, que foi traficada e vendida como escrava sexual
Quando tinha 16 anos, matou um de seus estupradores. Apesar da idade, foi julgada como adulta e recebeu a pena de prisão perpétua. Ela está na cadeia há 13 anos, e só pode pedir condicional quando tiver 69 anos. 
De escravo a criminoso c/1 emenda
É chocante -- mas apenas para quem não conhece as flagrantes injustiças do maior império do mundo, ou para quem não viu o excelente documentário A 13a Emenda, de Ava DuVernay (sobre como a prisão é uma forma contínua e estrutural de opressão aos negros). 
Em 2011 foi produzido um documentário muito bom sobre Cyntoia, e agora a história ganhou os holofotes devido ao interesse de algumas celebridades. 
Publico um curto texto do Juntos

Na última semana o caso da jovem Cyntoa Brown chegou às manchetes do mundo quando Kim Kardashian, Rihanna e outras celebridades lançaram a hashtag #FreeCyntoiaBrown (#LibertemCyntoiaBrown).
Cyntoia teve um infância difícil, tendo vivido nas ruas; mais tarde foi traficada sexualmente pelo homem com quem vivia. Aos dezesseis anos de idade a menina foi vendida para um homem de 43 anos, a quem deveria servir sexualmente. 
Segundo os advogados de Cyntoia, assustada e acreditando estar em perigo de vida, usou uma arma de seu estuprador e o assassinou. No entanto, ignorando todo o histórico da vítima, o estado do Tennessee, EUA, a julgou como adulta por homicídio motivado por dinheiro e prostituição. Agora Cyntoia, com 29 anos, deve passar o resto de sua vida na prisão. O caso tem gerado debates muito importantes e que também se aplicam ao contexto brasileiro.
Nos Estados Unidos, uma em seis mulheres já foi vítima de um estupro ou de uma tentativa de estupro. Os números não diferem muito da realidade do Brasil, onde se registra um estupro a cada onze minutos. Em ambos os países, a maioria das vítimas é menor de idade e ‘não branca’, como Cyntoia. O caso traz a necessidade do debate da cultura de estupro entranhada na sociedade, que chega a seu extremo quando falamos do tráfico de mulheres e meninas.
Além de sermos constantemente submetidas à violência sexual, nós mulheres somos também culpadas pela violência que nós mesmas sofremos. Sempre escutamos sobre a mulher que gosta de apanhar porque não se separa do marido abusivo, sem nenhuma consideração por sua condição financeira ou emocional, ou da menina que foi estuprada porque estava usando roupas curtas, como se isso fosse uma justificativa. 
Da mesma forma, Cyntoia Brown foi considerada culpada de fugir de uma das situações mais cruéis a qual um ser humano pode subordinado, a de escravidão sexual. Não podemos continuar culpabilizando as vítimas.
Outro debate importante colocado pela atenção dada recentemente à prisão de Cyntoia Brown é o encarceramento da juventude. 
Nos Estados Unidos 47.000 jovens foram privados de liberdade em 2015, 67% desse foram jovens ‘de cor’. No Brasil, onde a população carcerária aumenta com muita velocidade, 80% de 2004 a 2014, a maioria também é de jovens, no nosso caso negros. 
Aqui, a prisão de mulheres também tem crescido vertiginosamente, 567% de 2000 a 2014, sendo 68% dessas mulheres negras. Precisamos debater o encarceramento da juventude como uma forma de excluir ainda mais as populações historicamente marginalizadas, que não tem nenhum resultado na diminuição da violência -- muito mais relacionada aos altíssimos níveis de desigualdade social e racial em ambos os países. Além disso Cyntoia foi uma menina de 16 anos julgada como adulta e chama atenção para o que pode vir a acontecer no Brasil caso a redução da maioridade penal seja aprovada.
Cyntoia Brown é uma menina negra sendo culpabilizada e criminalizada por sofrer uma das piores violências que a sociedade criou. Precisamos lutar pela liberdade de Cyntoia Brown e contra a cultura do estupro, a culpabilização das vítimas e o encarceramento em massa da juventude negra!